Escrituras indígenas como espaço decolonial: atravessamentos e ancoragens em Metade Cara, Metade Máscara de Eliane Potiguara

Milena Costa Pinto, Elizabeth Gonzaga Lima

Resumo


Conflitos provenientes da colonização atravessam a condição dos sujeitos marcados pela subjetividade diaspórica. Configurados por exclusões históricas, tais sujeitos elaboram entrelugares da diferença e articulam reação, com vistas à decolonização e à ruptura dos liames hegemônicos que produzem “sujeitos-efeitos” (SPIVAK, 2010). Perpassados por processos de colonização, esses sujeitos, entre os quais se adscrevem diversos povos indígenas, se constituem multifacetados, pois impactados pela experiência da transculturação, entretanto, são transcendentes em suas identidades. Essa questão é expressa em Metade cara, metade máscara (2004), de Eliane Potiguara, escopo de enunciação de conflitos inerentes aos efeitos das migrações, do colonialismo e colonialidade para povos indígenas. A produção transita por questões de identidade, migração e resistência pertinentes a esfera geopolítica. Busca-se refletir neste texto acerca dos efeitos do colonialismo e colonialidade para esses povos e apresentar uma contrapartida, de (ins)crição e agenciamento. Enfoca-se a construção de uma autoetnografia epistêmica emancipada do paradigma colonial, ocidental. Produzido no contexto de mestiçagem, o texto de Potiguara (2004) assinala contradições da sociedade da qual procedeu. Reflete complexidades e ambivalências inerentes aos sujeitos representados, suas realidades conflitivas, próprias de sociedades heterogêneas, dotadas de aspectos definidos por Cornejo-Polar (2000), como mestiçagem, modelo sincrético, responsável por uma movediça sintaxe do migrante e sua multicultura, característica da desmembrada realidade da América. Consequentemente, Mignolo (2003) utiliza a expressão semiose colonial para destacar aspectos conflitivos e assimétricos do processo de mestiçagem cultural para as categorias de sujeitos localizados no eixo subjugado socialmente.


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