Vozes sem sonoridade: tramas do silêncio em Anacrusa, de Ricardo Daunt
Resumo
Este trabalho se ocupa de um estudo sobre a figuração do silêncio no romance Anacrusa (2004), de Ricardo Daunt. No que se refere à problemática do silêncio, a análise tem como principais bases teóricas as proposições de Barthes (2003), Holanda (1992), Orlandi (2002) e Homem (2011); quanto à especificidade da narrativa, tem-se como aporte teórico o pensamento de Adorno (2012) sobre o narrador contemporâneo, e Candido et al (2014) sobre a personagem do romance. O estudo do texto literário de Ricardo Daunt possibilitou-nos conclusões acerca da identidade do narrador contemporâneo. Percebemos que ele não mais se comporta como um simples contador de histórias, recorrendo, dentre outros meios expressivos, ao silêncio para exercer o seu poder sobre a condução da narrativa. Como procedimento estratégico, o narrador, em Anacrusa, retira a voz das personagens quando a fala delas pode prejudicá-lo, o que revela o silêncio como instrumento de subtração do outro. Ademais, considerando outros meios expressivos adotados na narrativa, o narrador também cria espaçamentos maiores entre um parágrafo e outro, o que apresenta um grande recorte na história das personagens, narrando somente os trechos que lhes sejam pertinentes para a visão própria que ele pretende criar diante do leitor.
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